Da prega que vem antes da mão

Da prega que vem antes da mão

I. Dizem que as linhas da palma são abertas pelo trabalho, como as rodas abrem o sulco na estrada, e que o lavrador tem umas, o escrivão outras e o ocioso nenhuma. Isso foi dito por quem não olhou. Quem olhou sabe que a mão se dobra pelas linhas, e não as linhas pela mão.

II. Observado muitas vezes: no recém-nascido, na primeira hora de vida, as três pregas principais da palma aparecem tão nítidas quanto num velho. Ele ainda não segurou nada além do dedo da mãe, e o seu caminho já está traçado. Observado também: naquele que não nasceu no seu tempo e saiu morto do ventre no terceiro mês, quando os dedos ainda não tinham se separado de todo e a mão não sabia se fechar, as pregas já estão lançadas. A mão ainda não se mexeu nenhuma vez, e a prega já existe. Logo, não é o movimento que a faz.

Da prega que vem antes da mão III. O desenho das pontas dos dedos, presilha, arco ou verticilo, não muda do berço ao túmulo. Dá para cortar com faca, queimar, gastar na pedra, e quando a pele cresce de novo o desenho volta igual, até a última volta. Esse desenho é o nome do homem, escrito não para os homens. As pregas da palma não são assim: as principais quase não mudam, as pequenas vivem, andam, empalidecem e somem. O desenho dos dedos diz quem você é. As pregas da palma dizem o que vai acontecer com você.

IV. As pregas principais são três, e em cada terra são chamadas de um jeito. Uma contorna em arco a base do polegar e desce para o pulso: chamam de linha da vida. Outra atravessa a palma pelo meio, a partir da borda entre o polegar e o indicador: chamam de linha da cabeça. A terceira fica mais acima, embaixo dos dedos, da lateral da palma para o indicador: chamam de linha do coração. Esses nomes são tardios e inexatos. O nome antigo é um só para as três: caminhos.

Da prega que vem antes da mão V. O comprimento da linha da vida não é o comprimento da vida. Já se viram velhos que chegaram aos cabelos mais brancos com uma linha curta como um toco, e já se viram moços mortos antes da primeira barba cuja linha contornava o polegar inteiro e entrava por baixo do próprio pulso. Quem lê o comprimento lê a coisa errada. Deve-se ler não o comprimento, mas o que está na linha: nós, ilhas, quebras, travessas, e o jeito como tudo isso se desloca com o tempo.

VI. Raramente, em um entre muitos, as duas pregas transversais, a da cabeça e a do coração, se fundem numa só, que atravessa a palma de ponta a ponta como a tranca de um portão. Essa mão é chamada de fechada. Nela se vê o prazo, mas não se veem os dias: tudo o que vai acontecer gruda numa coisa só, como as folhas de um livro molhado. Essas pessoas não são lidas. Não porque não se possa, mas porque o que se lê não se pode separar, e a pessoa recebe o seu mês inteiro de uma vez, num pedaço só, e isso ninguém aguenta.

Da prega que vem antes da mão VII. Notou-se que as pregas aparecem na mão antes de o coração do feto começar a bater com toda a força. Daí uns concluem que o destino é mais velho que o coração. Outros respondem que o destino não é mais velho, só chega mais cedo, como o dono da casa chega antes dos convidados para recebê-los na porta. Outros ficam calados. As três opiniões estão registradas aqui, porque nenhuma foi refutada.

VIII. Se as mãos de um pai, de um filho e de um neto forem colocadas lado a lado, dá para ver que as pregas não se repetem em tudo, mas no principal: a curva da linha da vida na base do polegar, a ilhazinha no começo dela, a forquilha da linha do coração embaixo do indicador. Isso é chamado de letra da linhagem. A letra da linhagem se herda com mais certeza que a cor dos olhos e o formato do nariz. O filho dos outros, passado por próprio, pode ser reconhecido pela palma, mesmo que seja a cara do pai, igualzinho, como duas gotas d'água. Está escrito também que a letra da linhagem transparece tanto mais nítida quanto mais distante é a geração, como se a linhagem escrevesse a cada geração a mesma palavra com cada vez mais força, até rasgar o papel.

Da prega que vem antes da mão IX. Dizem os antigos que a mão é o instrumento dos instrumentos. Aqui se acrescenta: e o livro dos livros. Só que esse livro não se lê da esquerda para a direita nem de cima para baixo, mas dos dedos para o pulso, como a água escorre, e nem todo olho o enxerga. Quem enxerga não enxerga logo. Primeiro se vê a pele. Depois se veem as pregas. Depois as pregas deixam de ser pregas e viram caminho, e depois do caminho se abre um campo, e sobre o campo faz tempo bom ou ruim, e nesse tempo há dias.

X. Perguntava-se: quem escreve na mão? O próprio homem com as suas obras, ou a mão escreve o homem, como se corta o pano por um molde, ou um terceiro escreve uma coisa e outra? Não há resposta. Está registrado só um dito que se repete numa certa terra do sul, onde perto do rio há uma ravina funda: nem a mão escreve o homem nem o homem a mão, é o destino que escreve o homem, e a mão é o lugar onde a tinta transparece através do papel.

Na margem, com outra tinta: transparece — então escrevem do outro lado.