Da mancha

Da mancha

I. Acontece de, entre os sinais pequenos da palma, aparecer um sinal que não se parece com nenhum outro: não é linha, nem estrela, nem cruz, nem ilha, mas uma mancha, redonda, escura, do tamanho da unha do mindinho, como se tivesse pingado tinta numa página. Ela é chamada de borrão, e assim vamos chamá-la aqui.

Da mancha II. Na pele viva não existe borrão. Por mais que se olhe a palma, em qualquer luz, com lupa ou no sol, onde no reflexo está a mancha a pele está limpa, sem pinta, sem arranhão, sem sujeira. O borrão só aparece na imagem da mão. E nem todo mundo vê: uns veem na hora e perguntam quem estragou a imagem; outros não veem nada e riem; outros ainda veem e fazem o sinal da cruz. Notou-se que estes últimos são mais numerosos entre as velhas e as crianças.

III. O borrão não tem medo da luz. Já tentaram lavá-lo, captar a imagem de novo, mudar a iluminação, usar outra cera, outra água. A sombra se mexe quando a luz muda; o borrão não. Ele fica num lugar só, como se estivesse pregado, e desce para o meio da palma só junto com o mês, como os outros sinais.

IV. As bordas do borrão são borradas, escorridas, como se a tinta tivesse se embebido no papel. Não há na palma nada mais escuro que ele; até a prega mais funda parece cinzenta do lado dele. Quem olha para ele muito tempo, com os olhos apertados, fica achando que ele não está na superfície da imagem, mas fundo, debaixo dela, como um poço sob a superfície lisa de um lago, e que o poço não tem fundo.

V. Estão registradas em lista as perdas que aconteceram com as pessoas no dia em que o borrão estava no meio da palma:

  • uma mulher que lavava roupa deixou cair na água a aliança que não tirava desde o casamento, e não achou;
  • um homem prendeu a mão numa porta e quebrou três dedos;
  • uma velha escaldou a palma direita ao tirar um caldeirão do fogo;
  • de um carroceiro sumiu a bolsa com o ganho da semana, que ele segurava na mão: ele se virou porque alguém chamou, e quando olhou de novo a bolsa não estava na mão, e não havia ninguém por perto;
  • uma moça cortou a palma num vidro, a pele saiu num retalho, e quando sarou não ficou naquele lugar nenhuma linha, liso como casca de ovo;
  • um velho cortou fora um dedo rachando lenha, coisa que nunca tinha acontecido com ele na vida inteira.

Nenhum deles morreu naquele dia, nem ficou doente de morte, nem se arruinou de vez. Mas cada um perdeu alguma coisa, e toda vez a perda tinha a ver com a mão: o que está na mão, o que se segura na mão, ou a própria mão. Como se um cobrador tivesse passado pelas pessoas, como o cobrador de impostos passa de quintal em quintal, e tivesse levado um pouco de cada uma, não a vida, mas aquilo que elas seguram.

VI. Notou-se ainda, e isso é o principal: em pessoas sem nenhuma ligação entre si, que moram em cantos diferentes e não se conhecem de vista, o borrão chega ao meio da palma no mesmo dia do mês. Um único dia assim por mês. Às vezes ele se desloca um dia, nunca mais que isso. Nesse dia o borrão está no meio em todos que o têm, sejam quantos forem. Quem anotou esses dias um depois do outro viu que eles ficam numa fileira só, como marcas no batente de uma porta.

Da mancha VII. Diz uma cópia: «É ele que anda. Uma vez por mês. Recolhe.» Quem é ele, não diz. Diz outra: «Ficar em casa não adianta, trancar a porta não adianta, não pegar nada nas mãos não adianta. Ele leva através da porta, através da parede, através do caldeirão e da aliança.» Diz uma terceira, em letra miúda, bem na beira da folha: «Não responda se chamarem você pelo nome.»

VIII. Há um testemunho que se dá de má vontade. Se você olhar o borrão com uma lupa por muito tempo, com boa luz, no fundo dele aparece um contorno: alongado, escuro sobre escuro, como se alguém alto estivesse de pé olhando de dentro da mancha para fora. Para alguns parece que ele não fica parado, mas que a cada dia do mês está num lugar diferente: ora perto de uma árvore distante, ora perto de uma cerca, ora numa escada. Para outros parece que ele está de costas. Nenhum dos que registraram isso viu o rosto dele. Todos que viram o contorno aconselham não olhar o borrão depois do pôr do sol.

Da mancha IX. Perguntaram de onde vem o borrão. Responderam de três jeitos. Os primeiros diziam: da própria pessoa, da culpa ou do pecado dela, como uma mancha de vinho na toalha. Não é assim: o borrão já apareceu em bebês de colo e em justos. Os segundos diziam: do acaso, como o granizo que castiga um campo e poupa o vizinho. Não é assim: o granizo não anda por dias. Os terceiros diziam: de quem lê. Como se todo aquele cuja mão foi olhada por quem lê se tornasse visível também para mais alguém, que olha através de quem lê como através de uma janela. Os terceiros são os menos ouvidos, porque, se tiverem razão, não se pode ler de jeito nenhum.

Na margem, com outra letra, com muita força: eles têm razão.

X. E a última coisa. O borrão não se apaga por se saber dele. Viram, avisaram, as pessoas ficaram trancadas naquele dia sem pegar nada nas mãos, e mesmo assim perderam o que era seu. Quem sabe do borrão só pode fazer uma coisa: se preparar para dar. Dizem que quem dá por conta própria dá menos.