Do mês
I. A mão vê um mês à frente. Nem um ano, nem uma semana, mas um mês, e nem um dia mais. É a primeira coisa que fica a saber quem aprende a ler, e a última com que se conforma.
II. As linhas pequenas da palma, finas, por vezes mais finas do que um cabelo, não estão paradas. Se se olhar para a mesma mão dia após dia à mesma luz, vê-se que descem, da base dos dedos para o pulso, devagar, como as nuvens no céu num dia sem vento. O que hoje está na base do mindinho, daqui a um mês estará no meio da palma, e depois descerá mais, para o pulso, e desaparecerá.
III. Todo o sinal que aparece na base dos dedos, seja uma estrela de três traços cruzados, uma ilha numa linha, uma cruz ou uma travessa curta, chega ao meio da palma em trinta dias, por vezes em vinte e oito, raramente em trinta e um. No dia em que está ao meio, acontece aquilo que ele significa. Tem-se por meio o ponto onde a linha do destino cruza a linha da cabeça; se não houver linha do destino, o ponto a meio entre a base do dedo médio e o pulso.
IV. Daí a regra: o que está junto aos dedos, é daqui a um mês; o que está a meio caminho, daqui a meio mês; o que está ao meio, é hoje; o que está abaixo do meio, já foi. A mão é como uma lanterna numa estrada de noite. O que está perto está bem iluminado, o que está longe está esbatido, e para lá do círculo de luz não há nada, e por mais que se espreite a escuridão fora do círculo, só se veem os próprios olhos.
V. Tentou-se ver mais longe. Procuraram-se nas mãos sinais de casamentos marcados com meio ano de antecedência, de partos cujo prazo se conhecia, de mortes por doenças que avançavam devagar e com certeza. Nada. Enquanto faltava mais de um mês para o acontecimento, não havia na palma o menor rasto dele. Um mês antes aparecia na base dos dedos, como aparece uma vela no horizonte: primeiro um ponto, depois uma mancha, depois vê-se de que cor é.
VI. Perguntou-se porquê um mês. Uns dizem: porque o mês é a medida da lua, e a lua governa a água, e o sangue é água, e a mão é sangue. É bonito e não explica nada. Outros dizem: o mês é a medida de uma dívida; findo o mês, a dívida cobra-se, e o destino, como um agiota, só vê até ao dia do pagamento. Outros ainda dizem que para lá do mês não é nosso, e de quem é, não dizem.
VII. Está registada uma experiência. A um homem que semeava a sua horta olharam a mão direita todas as manhãs, à mesma hora, sessenta dias seguidos. Nesse tempo apareceram-lhe na mão e chegaram ao meio onze sinais. Uma estrela junto ao anelar chegou ao meio no dia em que a vaca dele pariu gémeos, coisa que não acontecia na sua casa havia vinte anos. Uma travessa curta chegou ao meio no dia em que ele rasgou a perna com a gadanha. Uma ilha chegou ao meio no dia em que lhe morreu a sogra; ele próprio o contou sem pesar, e também isso ficou registado, para se ver que a mão não julga, apenas mostra.
VIII. Está registada também outra experiência, a contrária. Um sinal que anunciava desgraça foi visto com antecedência e o homem foi avisado. Nesse dia ficou em casa com a porta trancada, não se chegou às janelas e não pegou em nada com as mãos. A desgraça veio ter com ele a casa. O sinal não se apaga por ter sido lido. O que se lê, sabe-se, mas não se anula. Quem pensa que, tendo lido, pode contornar, é como o homem que viu do alto de um monte um desabamento na estrada e decidiu não ir, e o desabamento caiu-lhe no quintal.
À margem, noutra letra: não se anula. Mas às vezes pode-se indicar onde estar, para que a pedra caia ao lado.
IX. Quanto mais perto o sinal está do meio, mais negro e nítido é. Os sinais mais nítidos são os dos últimos três dias, quando já nada se pode fazer. Os mais pálidos, mal se distinguindo, são os dos primeiros dias, quando muito se pode fazer mas nada se vê. Assim está feito, e assim está feito, provavelmente, de propósito.
X. Há mãos em que o mês corre mais depressa, e um sinal chega ao meio numa semana. Encontram-se nos que estão com febre, nos que estão apaixonados pela primeira vez e naqueles a quem resta pouco. Há mãos em que o mês para, e os sinais não saem do sítio durante semanas. Encontram-se nos que jazem muito tempo sem sentidos, nos que esperam e nos muito velhos, que, segundo dizem, já não vivem, apenas aguardam.
XI. A última coisa. O mês da mão não coincide com o mês do calendário. Começa não no dia um, mas no dia em que se olha para a mão. Cada olhar abre o seu mês, como a chave abre uma porta, e cada mês fecha-se com estrondo ao fim de trinta dias. Por isso a mesma mão não se lê duas vezes no mesmo mês: o segundo olhar não abre um novo, apenas perturba o que já está aberto, e aquilo que está atrás da porta dá conta de que está a ser olhado.
