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O quiromante · Capítulo 1

A loja da cave

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1 de março de 2020

Há na nossa capital de província uma rua a que a cidade inteira chama Krivaya — a Torta —, embora nas placas tenha outro nome, perfeitamente decente, dado em honra de uma personalidade ilustre qualquer. Da personalidade ilustre já ninguém se lembra, mas que a rua é torta vê-o qualquer pessoa que a tenha percorrido uma única vez: primeiro desce a correr, depois muda de ideias e corre encosta acima, depois enrola-se à volta da velha torre da água como um compadre bêbedo à volta de uma sebe de vime, e só junto ao mercado cai em si e se endireita, como se nada tivesse acontecido.

As casas da Krivaya são velhas, ainda do tempo dos comerciantes, de paredes grossas e com janelas por onde se poderia fazer rolar uma pipa. Por baixo têm caves: as janelinhas enterraram-se no passeio até às sobrancelhas, e quem passa só vê nelas os pés de alguém e um gato. Numas caves arranjam sapatos, noutras vendem cerveja à pressão, e noutras não vendem nada: só está pendurado um cadeado, e esse cadeado está ali pendurado há uns vinte anos, e ninguém sabe quem o pôs.

Mas na casa número dezassete, na cave onde antigamente, diz-se, se vendia petróleo, e antes disso caixões ou baús (as velhas ainda discutem), está pendurada por cima da porta uma tábua de madeira, e na tábua lê-se, pintado a preto:

KESHA, O QUIROMANTE Leio a palma da mão. Vejo um mês à frente.

Por baixo, atrás de um vidro para não apanhar chuva, a tabela de preços. Seis linhas, seis preços em moedas de prata, e em baixo, em letra miudinha: «A previsão é válida por 30 dias. Não se fazem devoluções: tudo se cumpre.»

Dirão: grande novidade, uma cartomante. Como se hoje faltassem! Em cada centro comercial há uma madame de xaile com franjas a deitar cartas, e no telemóvel há milhares de madames assim, e cada uma promete amor, dinheiro e o fim da maldição do celibato a preço módico. Tudo isso é verdade. Mas, em primeiro lugar, o Kesha não é madame nenhuma. E em segundo lugar — e isto é o principal —, com o Kesha tudo se cumpre.

Não vou tentar convencê-los. Se não quiserem acreditar, não acreditem. Perguntem só a qualquer vendedor da praça do mercado, a qualquer mulher da fila do centro de saúde, a qualquer taxista dos que esperam na esquina junto à torre: diga-me cá, esse Kesha da Krivaya diz a verdade ou fala por falar? E o taxista primeiro vai olhar para vocês como para quem acabou de cair da lua, depois cospe para o lado e diz: «A verdade, raios o partam.» E não diz mais nada, porque, como se vem a saber, o taxista teve no ano passado uma história sua, de que não gosta de se lembrar.


A manhã na loja começava sempre da mesma maneira, e naquela primeira manhã de março também.

O primeiro a chegar era o Grisha. Chegava às sete e meia, embora abrissem às dez, porque assim lhe tinha sido mandado. O Grisha fazia tudo como lhe mandavam, e era essa a sua principal virtude, e talvez a única. Dezasseis anos, comprido como uma vara, com uns braços que pareciam crescer-lhe não bem do sítio certo e que por isso estavam sempre a esbarrar em qualquer coisa, de orelhas de abano e com uma cara tão ingénua que no mercado lhe davam sempre troco a mais, só por pena.

O Grisha tirava o casaco, pendurava-o no prego junto à porta — naquele prego e não no do lado —, vestia uma bata azul, enchia um balde de água morna e lavava o chão.

O chão da loja era de pedra, de lajes velhas, e tinha de ser lavado de uma maneira especial: da parede do fundo para a porta, sem saltar uma única laje, torcendo o pano até ficar seco, e no fim passar duas vezes pela soleira. Porquê duas vezes, o Grisha não sabia. Tinham-lho dito. E ele fazia assim.

Depois o Grisha limpava o pó: do parapeito, da prateleira dos livros de contas, da velha cadeira dos clientes, da mesinha onde estava uma caixa de lenços de papel («para os emotivos», como estava escrito na caixa pela mão do Kesha). Depois punha a chaleira ao lume. Depois sentava-se no banco junto à porta e esperava.

A loja não era grande. Uma única divisão, comprida como um estojo, de teto baixo e abobadado. Junto à entrada, a cadeira dos clientes e a mesinha. Mais para dentro, de parede a parede, uma pesada cortina de veludo verde-escuro, gasta em alguns sítios até às carecas. Atrás da cortina, o Kesha.

Os clientes não viam o Kesha. Nunca. Era a primeira regra da loja, e o Grisha explicava-a a toda a gente que perguntava — e perguntavam quase todos.

— O mestre não se encontra com os clientes — dizia o Grisha, olhando para um ponto acima da cabeça de quem perguntava, porque assim lhe era mais fácil lembrar-se das palavras. — O mestre precisa de se concentrar. Tudo o que quiserem saber dizem-me a mim. Eu passo ao mestre. O mestre lê a vossa palma e escreve a resposta.

— E como é que ele a lê, se não me vê? — admirava-se o cliente.

— Pela fotografia — respondia o Grisha, e mostrava o telemóvel.

E aí o cliente costumava desatar a rir ou, pelo contrário, zangar-se por o tomarem por parvo, e então o Grisha, sem se ofender nem um bocadinho, dizia a frase seguinte das que lhe tinham sido mandadas:

— Pode não acreditar. Mas pague, e daqui a um mês vê com os seus próprios olhos.

E, imaginem, pagavam.


O próprio Kesha não entrava na loja pela porta. Para ser exato, nunca saía dela: atrás da cortina verde, atrás da mesa, havia outra portinha, baixa, que dava para o quarto dos fundos, onde estavam a cama do Kesha, um armário, um fogareiro, livros e o velho baú do avô, que o Kesha não abria havia doze anos. Assim vivia ele: na loja, atrás da loja, junto à loja, e quase não ia a lado nenhum, a não ser à noite, quando a Krivaya ficava vazia, dar uma volta até à torre e voltar.

Tinha vinte e sete anos. Era magro, pálido daquela palidez especial das pessoas que passam muito tempo em caves, e usava a velha camisola do avô com remendos nos cotovelos, embora pudesse comprar dez novas. Dinheiro tinha: um bom quiromante tem sempre. Mas o Kesha não tinha bem em que o gastar e, sobretudo, com quem.

O Kesha não gostava de pessoas. Não, não é bem isso: não desejava mal a ninguém, e se alguém caísse na rua à frente dele, provavelmente ajudava-o a levantar-se. Mas ouvi-las — as suas queixas, as suas lágrimas, os seus intermináveis «e então ele disse-me, e então eu disse-lhe» — era coisa que o Kesha não aguentava de todo. Cansava-o como se andasse a carregar sacos. E por isso, no outono passado, contratara o Grisha.

O Grisha era o ajudante ideal. Ouvia tudo o que os clientes lhe contavam com a mesma expressão compadecida, não percebia nada, não fixava nada a não ser o essencial e não fazia perguntas. O Kesha escreveu-lhe umas instruções — pormenorizadas, em quatro folhas, com exemplos do que dizer se o cliente chorar, do que dizer se o cliente gritar e do que dizer se o cliente tentar passar para trás da cortina —, e o Grisha decorou-as como um poema e despejava-as sem hesitar.

Mas o principal no trabalho do Grisha era a fotografia.

— A palma tem de ser bem fotografada — dizia o Kesha, quando o ensinava. — É o mais importante. Mais importante do que tudo o resto junto. Percebes?

— Percebo — respondia o Grisha.

— Palma aberta. A mão toda no enquadramento, do pulso à ponta dos dedos. Os dedos um bocadinho afastados. A luz de lado, não de frente. Com luz chapada as linhas desaparecem. Percebes?

— Percebo.

— Se a fotografia for má, não vejo nada. E se não vir nada, escrevo disparates. E se escrever disparates…

— …os disparates cumprem-se — completava o Grisha, porque já o tinha ouvido umas cem vezes.

— Exatamente — dizia o Kesha.

E o Grisha fotografava. Fotografava com todo o cuidado, com a pontinha da língua de fora, fazia o cliente virar a mão assim e assado, chegava-se à janela, afastava-se da janela, pedia «só mais uma», e os clientes, que ao princípio se zangavam, acabavam por se resignar e ficavam quietos como no médico, com a palma estendida à frente, como quem pede esmola.


Naquela manhã, a primeiro de março, juntaram-se cinco clientes.

Mais de cinco por dia o Kesha não lia. Era a segunda regra da loja. Ao sexto o Grisha dizia com cara compadecida: «O mestre hoje já não atende mais. Venha amanhã cedo», e o sexto ia-se embora a praguejar, e no dia seguinte chegava às sete e meia e ficava à porta à espera enquanto o Grisha lavava o chão.

A primeira foi uma mulher nova, de casaco de penas, que queria saber do «Trabalho»: se a iam aceitar no banco onde tinha ido a uma entrevista. O Grisha fotografou-lhe a palma, levou-a para trás da cortina e, passados vinte minutos, trouxe um pergaminho — um pergaminho a sério, grosso, amarelado, enrolado e atado com um fio grosseiro. A mulher desenrolou-o ali mesmo, junto à mesinha, leu-o e primeiro iluminou-se toda e depois franziu a testa.

— Aqui diz: aceitam-na, mas não nesse departamento — disse. — Como é que se entende isto?

— Tal como está — disse o Grisha. — O mestre escreve as coisas como são.

O segundo foi um velho de bengala, que pediu «Carteira» e, ao receber o pergaminho, esteve muito tempo a mexer os lábios e depois disse: «Dia doze? Pois que seja dia doze», e foi-se embora satisfeito.

O terceiro foi um rapaz, um estafeta, de casaco amarelo e com uma grande caixa quadrada às costas. Tinha entrado a correr entre duas entregas, estava com pressa e não parava de olhar para o telemóvel.

— Quero «Coração» — disse. — A minha namorada deixou-me. Ela volta?

— O mestre não diz «volta» ou «não volta» — recitou o Grisha. — O mestre diz o que vai acontecer este mês. Encontros, declarações, zangas e reconciliações.

— Pois então que diga.

O rapaz pagou duas pratas, estendeu a mão e o Grisha fotografou. O rapaz chamava-se Lionia: o Grisha apontou-o no livro de visitas, onde apontava toda a gente que dizia o nome. Passados vinte minutos o Lionia recebeu o pergaminho, leu-o, bufou, meteu-o no bolso do casaco amarelo e saiu a correr, a responder a alguém ao telemóvel: «Sim, já vou, já vou.»

A quarta foi uma senhora que queria «Cuidado» e que, enquanto esperava, ainda teve tempo de contar ao Grisha da sogra, dos vizinhos de baixo, que lhe inundavam a casa, e do cão, que lhe comia o sofá. O Grisha ouvia tudo com a mesma cara compadecida e de vez em quando dizia «Percebo», e ia deitando o olho à caixa de lenços, para o caso de fazer falta. Não fez.

E o quinto cliente chegou quando já começava a escurecer.


Em março escurecia cedo, e na cave da Krivaya ainda mais cedo: a luz entrava ali de má vontade mesmo de dia, como se fosse preciso convencê-la. O Grisha tinha acabado de acender o candeeiro por cima da mesinha e ia pôr a chaleira ao lume quando a porta se abriu.

Não tinha ouvido passos na escada. Só mais tarde, quando o Kesha o interrogou, é que o Grisha se lembrou e disse admirado: não houve passos. Os degraus da loja eram de ferro, ressoavam, e ouvia-se cada cliente lá de cima, mal ele se agarrava ao corrimão. Mas este, não. A porta simplesmente abriu-se, e lá estava um homem.

Como era, o Grisha não conseguiu explicar depois. Alto, isso sim. De sobretudo comprido e escuro, à antiga, até aos tornozelos. Um chapéu, parece. Ou não um chapéu. A cara…

— Uma cara normal — dizia o Grisha, franzindo a testa. — Pronto, uma cara. Como a de toda a gente.

— Novo? Velho? Bigode, barba?

— Normal — repetia o Grisha, e via-se que se esforçava com todas as forças por se lembrar e não conseguia.

O homem entrou, fechou a porta atrás de si e parou no meio da loja. O Grisha levantou-se, como devia, e disse, como devia:

— Boa tarde. Vem ver o mestre?

— Venho ver o mestre — disse o homem. Tinha uma voz baixa, como se viesse de longe.

— O mestre lê a palma da mão e vê um mês à frente — disse o Grisha. — Aqui tem, por favor, as opções e os preços. O que gostaria de saber?

O homem não olhou para a tabela de preços. Disse:

— Que olhe e veja o que vir.

Isso não estava nas instruções do Grisha. O Grisha atrapalhou-se, mas não muito: para casos assim também tinha uma coisa preparada.

— O mestre precisa de uma opção — disse. — Senão, o mestre não sabe para onde olhar.

O homem ficou calado, como quem pensa. Depois disse:

— Então, «O Dia Principal».

«O Dia Principal» custava oito pratas e era o mais caro. Raramente alguém o pedia. O Grisha acenou, tirou o telemóvel e disse a frase decorada que dizia vinte vezes por dia:

— Abra a palma da mão, por favor.

O homem tirou uma luva — só então o Grisha reparou que ele trazia luvas — e estendeu a mão.

O Grisha olhou para ela e não viu nada de especial. Uma mão como outra qualquer. Larga, pálida, de dedos compridos. O Grisha levou o homem até à janela, virou-lhe a mão para a luz como lhe tinham ensinado, de lado, para se verem as linhas, e fotografou. Depois, por via das dúvidas, outra vez. Depois olhou para a imagem no telemóvel, viu a palma, inteira, do pulso à ponta dos dedos, e ficou satisfeito.

— Sente-se — disse o Grisha. — O mestre vai ler e escrever. Uns vinte minutos.

O homem sentou-se na cadeira dos clientes. Não voltou a calçar a luva: pousou a mão no joelho com a palma para cima, como quem segura qualquer coisa invisível. O Grisha pegou no telemóvel e foi para trás da cortina.


O Kesha estava sentado à mesa, no círculo de luz do candeeiro verde, a beber chá frio. Em cima da mesa havia uma pilha de pergaminhos em branco, um tinteiro, uma caneta de aparo — verdadeira, de aço, a do avô — e uma grande lupa de cabo de bronze.

— O último — disse o Grisha. — «O Dia Principal».

O Kesha acenou, pegou no telemóvel e olhou para a fotografia.

Olhou durante muito tempo. O Grisha estava ao lado à espera, a passar o peso de um pé para o outro: normalmente o mestre olhava para uma fotografia um segundo, dois no máximo, e depois punha-se a escrever, e o aparo arranhava depressa, depressa, como um rato na parede. Mas agora não escrevia. Olhava.

Depois o Kesha ergueu os olhos para o Grisha, e o Grisha — até ele, com toda a sua simplicidade — viu que o mestre estava mais pálido do que o costume.

— O que é isto? — perguntou o Kesha baixinho.

— Uma palma — disse o Grisha.

— De quem?

— Do cliente. Do último. Está ali sentado.

O Kesha virou o telemóvel para ele.

No ecrã estava uma palma. Bem fotografada — nisso o Grisha podia orgulhar-se: a mão toda no enquadramento, os dedos um pouco afastados, a luz de lado. Uma palma larga e pálida, de dedos compridos.

E não tinha uma única linha.

Nem linha da vida, nem linha do coração, nem linha da cabeça. Nem montes, nem cruzes, nem estrelas, nem ilhas, nem a mais pequena dobra nas articulações dos dedos. A palma era lisa como uma casca de ovo. Como a de uma boneca. Como se não a tivessem fotografado a uma pessoa viva, mas a tivessem moldado em cera e se tivessem esquecido de acabar o desenho.

— Isto é uma brincadeira? — perguntou o Kesha.

— Não — disse o Grisha, e os olhos ficaram-lhe redondos. — Mestre, palavra de honra. Eu vi com os meus olhos. A mão era normal. Com linhas. Como a de toda a gente. Eu olhei!

— Vai lá ver outra vez.

O Grisha afastou a cortina e saiu.

A cadeira dos clientes estava vazia. A porta, fechada. Na mesinha, no sítio onde os clientes deixam o dinheiro, estavam oito moedas: de prata, mas não como as que toda a gente usava. Maiores, mais pesadas, mais escuras, com a orla gasta, como roída.

E na cadeira, no assento onde ainda há pouco tinha estado pousada, de palma para cima, uma mão pálida — o Grisha jurou-o depois pela mãe, e o Kesha acreditou, porque o Grisha nunca mentia —, no assento estava um torrãozinho de terra, do tamanho de uma unha. Húmido. Negro. Como se acabasse de ser tirado de debaixo da neve.

— Mestre — chamou o Grisha com a voz rouca. — Mestre, ele foi-se embora.

Atrás da cortina fez-se silêncio. Depois o Kesha disse:

— Não houve passos na escada.

Não era uma pergunta. O Grisha escutou-se por dentro, ao que se lembrava, e percebeu com surpresa que o mestre tinha razão: não houve. Nem quando o homem chegou nem quando se foi.

— Não houve — disse o Grisha.

— Fecha a loja — disse o Kesha. — E vai para casa.

— E o dinheiro?

O Kesha ficou calado.

— No dinheiro não mexas — disse. — Que fique aí.

O Grisha fechou a loja, pendurou a bata no prego, vestiu o casaco e foi para casa, para os arredores, na última marshrutka, e o caminho todo foi a olhar para a sua própria palma, para as suas linhas, como quem verifica se ainda lá estão.

E o Kesha ficou sentado à mesa, no círculo de luz verde, a olhar para a fotografia da palma lisa até o ecrã do telemóvel se apagar. Então carregou no botão, e o ecrã voltou a acender-se, e ele voltou a olhar.

Sobre a rua Krivaya levantava-se o vento. Algures lá em cima, junto à torre da água, batia uma chapa solta. E na cave da casa número dezassete, na mesinha junto à porta, estavam oito moedas escuras, e ninguém lhes tocava.

No livro, as mãos são lidas à luz de um candeeiro. O Palmy lê a sua por uma fotografia. Experimente