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O quiromante · Capítulo 6

Cinco palmas

· 13 min de leitura

6 de março de 2020

Há dias em que parece que a cidade inteira combinou mandar-te os seus habitantes mais insuportáveis — e não um de cada vez, mas todos ao mesmo tempo, para não haver falhas. O dia seis de março foi um desses dias, e começou com três pessoas já à porta da loja às sete e meia, quando o Grisha ainda estava a descer a escada de ferro.

O primeiro era um homem com um gorro de castor. O gorro era tão grande e tão peludo que ao princípio não se via o homem por baixo, e o homem era pequeno, redondo, com uma cara também redonda e corada onde cabiam uns olhinhos, um narizinho e um bigode grande e descaído, como de morsa. Vestia um sobretudo com gola de castor, por baixo do sobretudo um fato, por baixo do fato, como depois se soube, um colete, e do bolso do colete pendia a corrente de um relógio, de bolso a sério, com tampa. Na mão trazia uma pasta de cabedal e apertava-a contra a barriga como se lá dentro houvesse segredos de Estado.

A segunda era uma senhora. A senhora era alta, magra, de casaco de pele de raposa, chapeuzinho com véu e uma cara que exprimia logo à partida o seu desagrado com tudo o que existe — e ao colo trazia um cãozinho. O cãozinho era ruivo, felpudo, de focinho afiado de raposa, e olhava para o mundo exatamente com a mesma expressão da dona, de modo que o Grisha, ao vê-los, por um instante nem soube qual dos dois segurava o outro.

Os terceiros eram um casal — um rapaz e uma rapariga, novos, de casacos desportivos iguais —, que não paravam de cochichar e de vez em quando desatavam a discutir, também em sussurros, mas tão furiosos que se ouviam por toda a Krivaya.

— Bom dia — disse o Grisha. — Abrimos às dez.

— Eu sei — disse o homem do gorro de castor. — Sou o primeiro.

— Com licença — disse a senhora. — Eu cheguei antes.

— Quando a senhora chegou, eu já cá estava.

— O senhor não estava. O senhor andava de um lado para o outro. Quem anda de um lado para o outro não está na fila.

— Estava a aquecer-me!

— Aqueça-se em casa.

O cãozinho ao colo da senhora soltou um latido curto e desdenhoso, e o homem do gorro de castor recuou um passo.

O Grisha, como lhe tinham mandado, disse:

— O mestre atende por ordem de chegada. Cinco pessoas por dia. Quem se inscreveu, passa.

— Inscreveu? — repetiu o homem do gorro. — Inscreveu onde? Eu não me inscrevi em lado nenhum!

— Ninguém se inscreveu — disse o Grisha. — É uma maneira de dizer. Quem chegou primeiro.

— Eu! — disseram ao mesmo tempo o homem do gorro e a senhora.

O casal dos casacos desportivos, a quem entretanto se juntara um quarto — um homem de meia-idade de fato-macaco que cheirava a peixe —, assistia a tudo calado, com interesse, como se assiste no circo.

O Grisha coçou a nuca. Nas suas quatro folhas de instruções não havia nada para este caso. Havia um ponto «Se os clientes discutirem entre si», mas falava de outra coisa: de um marido e de uma mulher que vêm juntos e não se decidem sobre quem entra primeiro. Lá dizia: «Deixa passar primeiro a mulher.» O Grisha pensou e concluiu que servia.

— Passa primeiro a mulher — disse.

A senhora ergueu o queixo, triunfante. O cãozinho também. O homem do gorro de castor ficou tão vermelho que parecia que o bigode se lhe eriçava.

— Eu — disse ele —, para seu conhecimento, sou subchefe de departamento! Da administração municipal!

— Muito prazer — disse o Grisha, porque era o que se devia dizer quando alguém se apresentava.

— Kubyshkin! Panteleimon Sysóyevich!

— Muito prazer — repetiu o Grisha, e, por via das dúvidas, tomou nota de cabeça: Kubyshkin.

— E eu — continuou Panteleimon Sysóyevich, cada vez mais encarnado — não tenciono ficar na fila atrás de… atrás de um cão!

— Não é um cão — disse a senhora com voz gelada. — É um spitz.


Às dez a loja abriu, e a senhora do casaco de raposa entrou primeiro.

Chamava-se Anguelina Márkovna. O Grisha soube-o quando lhe perguntou o nome para o livro, e de caminho soube que ela «não era uma qualquer», que o falecido marido «tinha uma posição», que ela própria «tinha uma loja de cosmética de luxo na avenida» e que não vinha por ela.

— Por quem? — perguntou o Grisha, porque era o que se devia perguntar.

— Pelo Zhuzhú — disse a Anguelina Márkovna.

O Grisha olhou para ela. Depois para o cãozinho. O cãozinho olhou para o Grisha.

— O Zhuzhú — repetiu a Anguelina Márkovna, ao ver que ele não percebia — é ele. Está adoentado. Os veterinários não sabem o que fazer. Quero saber o que o espera. «Cuidado», é disso que preciso.

— O mestre lê palmas — disse o Grisha com cautela. — De pessoas.

— O Zhuzhú tem pata.

— Isso não é uma palma.

— Meu jovem — disse a Anguelina Márkovna, e a voz dela virou um pingente de gelo —, pago cinco pratas. Ou dez. O que o senhor disser. Fotografe a pata.

O Grisha atrapalhou-se. Depois recompôs-se e fez o que fazia sempre que não sabia o que fazer: disse «Só um momentinho» e foi para trás da cortina.

— Mestre — sussurrou —, está ali uma senhora. Com um cão. Quer que o senhor leia ao cão.

Atrás da cortina fez-se silêncio. Depois o Kesha disse:

— O quê?

— A pata. Do cão. «Cuidado». Diz que paga dez pratas.

Outra vez silêncio. Depois, atrás da cortina, ouviu-se um som que o Grisha nunca tinha ouvido e que não reconheceu logo. O mestre estava a rir-se. Baixinho, abafado, como quem tenta conter-se e não consegue.

— Está bem — disse por fim o Kesha. — Fotografa a pata. Cinco pratas. Não dez.


O Grisha passou doze minutos a fotografar a pata do Zhuzhú.

O Zhuzhú não queria ser fotografado. O Zhuzhú debatia-se, rosnava, escondia a pata debaixo do corpo, e quando o Grisha lha conseguia tirar, tentava mordê-lo. A Anguelina Márkovna segurava-o e dizia: «Zhuzhú, meu tesouro, aguenta, é para teu bem», e o Zhuzhú olhava para o Grisha com tanto ódio como se o Grisha não lhe fosse fotografar a pata, mas cortá-la.

Por fim o Grisha tirou a fotografia: uma almofadinha cor-de-rosa, quatro almofadinhas mais pequenas, pelo ruivo entre elas. A luz de lado, como devia ser. Levou a fotografia para trás da cortina.

O Kesha olhou. Pensou. E — para sua própria surpresa — viu alguma coisa. Pouca: o mês de um cão era como uma pocinha comparado com o lago de um mês humano, mas alguma coisa havia. O Kesha molhou o aparo.

«Cuidado. Março. Não lhe dê chocolate. Daquele que está na caixa azul na cozinha. No dia dezanove não o deixe ir à varanda. De resto, um mês tranquilo. Vai viver muito tempo ainda.»

A Anguelina Márkovna leu, soltou uma exclamação e apertou o Zhuzhú contra o peito.

— O chocolate! — disse. — Como é que ele sabe do chocolate?! Mas eu… eu escondo-o! Ponho-o na prateleira de cima…

— O mestre vê — disse o Grisha.

A Anguelina Márkovna pôs cinco pratas na mesinha, pensou e pôs mais duas. Depois olhou para as moedas negras que estavam ao lado, franziu os lábios mas não disse nada, e foi-se embora com o Zhuzhú, que à despedida se virou e olhou para o Grisha de tal maneira que o Grisha percebeu: ele e o Zhuzhú ainda se iam voltar a encontrar.


O segundo a entrar foi Panteleimon Sysóyevich Kubyshkin.

Entrou como, provavelmente, entrava nos gabinetes: abrindo a porta de par em par, a bufar, levando a barriga à frente como um estandarte. Olhou à volta. Viu a cortina verde. Foi direito a ela.

— Ali não se pode entrar — disse o Grisha, pondo-se-lhe à frente.

— Eu posso — disse o Kubyshkin.

— Ninguém pode. O mestre não se encontra com os clientes.

— Eu não sou um cliente. Eu sou o Kubyshkin.

— O senhor é um cliente — disse o Grisha com firmeza. Aquela parte das instruções conhecia-a melhor do que todas: «Se o cliente tentar passar para trás da cortina.» Lá dizia: «Põe-te no caminho. Não empurres. Não grites. Repete: o mestre precisa de se concentrar. Repete até ele se cansar.»

— O mestre precisa de se concentrar — disse o Grisha.

— Eu também preciso de me concentrar! — disse o Kubyshkin. — Na segunda-feira tenho uma avaliação! Dela depende — percebe, meu jovem? —, dela depende se eu fico com a cadeira de chefe de departamento! Ou se fica com ela aquele… aquele… Sviridov! Tenho de saber! Tenho de falar com o seu mestre pessoalmente!

— O mestre precisa de se concentrar — disse o Grisha.

— Eu pago!

— O mestre precisa de se concentrar.

— O dobro!

— O mestre precisa de se concentrar.

O Kubyshkin encheu-se de ar para dizer mais alguma coisa, mas, olhando para o Grisha — para a sua cara ingénua, completamente impenetrável —, de repente deixou sair o ar como uma bola furada e sentou-se na cadeira.

— Pronto — disse. — Pronto. «Trabalho». Quanto é?

— Duas pratas.

— Só? — O Kubyshkin pareceu ofender-se. — Mas aqui… aqui decide-se uma carreira!

— Duas pratas — disse o Grisha. — Abra a palma da mão, por favor.

O Kubyshkin tirou a luva — de cabedal, forrada a pelo — e estendeu a palma. Tinha a palma gorducha, rosada, macia como um pãozinho, e no anelar brilhava-lhe um grosso anel de sinete de ouro. O Grisha levou-o à janela.


Os terceiros foram os jovens dos casacos desportivos.

Chamavam-se Denis e Alina, e iam casar-se. Quer dizer, a Alina ia casar-se, e o Denis — foi o que o Grisha percebeu dos cochichos — ia casar-se, mas não bem. Ou bem, mas não agora. Ou agora, mas não com a Alina. Aí o Grisha perdeu-se de vez.

Queriam «Próximos e estranhos». Os dois. Cada um sobre o outro.

— Que diga se ele me mente ou não — disse a Alina.

— Que diga quem é que lhe liga à noite — disse o Denis.

— Ninguém me liga!

— Então quem é o «Lioshik»? Tens um «Lioshik» no telemóvel!

— O Lioshik é o meu irmão!

— Tu não tens irmão!

— Primo!

O Grisha fotografou as duas palmas — à vez, uma depois da outra — enquanto eles continuavam a apurar quem era o Lioshik, e levou as fotografias para trás da cortina. Meia hora depois trouxe dois pergaminhos. O Denis e a Alina desenrolaram cada um o seu — e calaram-se. Pela primeira vez em toda a manhã. Depois olharam um para o outro. Depois a Alina disse baixinho: «Pronto, está bem», e o Denis disse: «Está bem estás tu», e foram-se embora de mãos dadas, e o Grisha nunca soube o que lá estava escrito.

O quarto foi o homem do fato-macaco que cheirava a peixe. Trabalhava no mercado, nas bancas do peixe, chamava-se Stepan e queria «Carteira». Leu o pergaminho a mexer os lábios, disse: «Bom, isso já eu sabia», e foi-se embora, deixando atrás de si um cheiro tal que o Grisha teve a porta aberta meia hora.

E a quinta foi uma velhinha, pequenina, mirrada, de lenço na cabeça, que passara a manhã inteira caladinha na escada, sem empurrar ninguém, e quando chegou a vez dela disse que não precisava de nada, só queria ver se era verdade que ali estava o neto do avô Grisha.

— É verdade — disse o Grisha.

— Pois ainda bem — disse a velhinha, benzeu-se virada para a cortina verde como para um ícone, e foi-se embora.

O Grisha ficou sem saber o que fazer. A quinta não contava: não tinha pedido nada. Então podia atender mais alguém. Espreitou para a escada. Não estava lá ninguém.

— Quatro — disse para a cortina. — Hoje quatro.

— Então quatro — respondeu o Kesha.


Mas naquele momento o Kesha não estava a pensar em quantos tinham sido.

Estava sentado diante da fotografia que o Grisha tirara em segundo lugar — a palma gorducha e rosada com o anel de sinete de ouro no anelar — e olhava para o mês de Panteleimon Sysóyevich Kubyshkin.

O mês era um mês como outro qualquer. A avaliação de segunda-feira. A cadeira de chefe de departamento: não, não ia ficar com ela, ia ficar o Sviridov, mas não fique triste, Panteleimon Sysóyevich, daqui a meio ano o Sviridov vai-se embora pelo próprio pé, e então… O Kesha não escreveu sobre o meio ano: isso era «mais além», e mais além não era deles. Escreveu sobre a segunda-feira. Escreveu com cuidado: «Vai passar na avaliação. A cadeira vai ser de outro. Não discuta com ele no dia doze.»

E depois, como fazia sempre agora, voltou ao dia vinte e dois.

O dia vinte e dois de março do Kubyshkin estava tapado por um borrão.

Igual ao da Tamara Petrovna. Negro, redondo, de bordas esborratadas, como se alguém tivesse dado uma pincelada molhada no mês. E depois dele, igual, tudo desbotado, descolorido, como se aos dias que restavam tivesse fugido a cor.

O Kesha estava sentado a olhar para o borrão, e do outro lado da cortina o Grisha despedia-se do peixeiro Stepan e segurava a porta aberta, e da rua entrava frio e humidade de março.

A Tamara Petrovna: uma viúva calada, bibliotecária, de casaco cinzento e cachecol verde. Panteleimon Sysóyevich Kubyshkin: subchefe de departamento, de gorro de castor e bigode de morsa. Não se conheciam. Não podiam conhecer-se. Não tinham nada em comum — a não ser que os dois tinham vindo ver o Kesha. E que aos dois o dia vinte e dois de março estava inundado do mesmo negro.

O Kesha olhou para as outras fotografias: Denis, Alina, o peixeiro Stepan. Até para a pata do Zhuzhú olhou. Nada. O dia vinte e dois de todos era um vinte e dois como outro qualquer: para o Denis, uma zanga; para a Alina, uma reconciliação; para o Stepan, um bom apuro; para o Zhuzhú, um passeio no parque.

Só o Kubyshkin.

O Kesha afastou-se da mesa. Dois. Dois de… quantos tinha ele lido nessa semana? Uns vinte e cinco, provavelmente. Dois em vinte e cinco.

De repente percebeu o que tinha de fazer. Tinha de pegar em todas as fotografias — todas, da semana, de duas semanas, de março inteiro — e olhar para cada uma. Todas sem exceção. No dia vinte e dois.

Ainda não sabia o que ia encontrar. Mas no peito, debaixo das costelas, ali de onde vinha sempre o saber, estava uma pedra pesada e fria. E essa pedra dizia-lhe: vais encontrar mais do que dois.

No livro, as mãos são lidas à luz de um candeeiro. O Palmy lê a sua por uma fotografia. Experimente